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2010-07-06

Os livros de minha vida...


Os livros de minha vida não são aqueles que li que me foram mais importantes. Não são os que quis escrever... Mas são livros que dizem respeito a mim desde meu nascimento.

Até hoje sei de dois: “Os Estatutos do Homem” de Thiago de Mello e “Cartas a Théo” de Vincent van Gogh. São livros que me cercam desde o nascimento, embora tenha passado décadas até lê-los... O primeiro em minha segunda década, entre 15 e 17 anos, e o segundo na minha terceira, aos 23.

Estatutos do Homem não é o melhor poema do mundo, mas é ao menos doce... Thiago, eis o nome do autor. Este seria meu nome. Não sei quantos thiagos há em minha geração, mas há muitos. Um nome é tão importante, cada coisa tem seu nome, algumas mais de um, não queria que fosse algo tão comum...
Cartas a Théo é nada mais do que isso. Cartas de Vincent a seu irmão Theodorus, a quem o pintor chamava carinhosamente desde a infância de Théo. Nesse, primeiro de dois livros que conheço que encerram meu nome em seu título, Vicent fala com seu irmão sobre sua vida, suas angustias, sua arte.
Mas o que faz esses livros serem os livros de minha vida? Por que não obras mais famosas? Mais complexas? Por que não alguns que narrem aventuras épicas que tanto aprecio? Esses livros estão em minha vida sem minha intenção. Aquele tipo de coisa que se atribui ao destino.
Os dois livros entraram em minha vida na época de meu nascimento. De todos os presentes que meu pai podia comprar para um recém-nascido, ele escolheu um livro. Coincidência? Destino? Chame do que quiser... No dia de meu nascimento, o primeiro presente de meu pai foi um livro. Um livro de um autor chamado Thiago, nome que meus pais especulavam me dar... Mas não era um presente para um recém-nascido, então só o receberia muitos anos depois.
Mas meu nome não foi, nem é Thiago. E tudo graças a Vincent van Gogh. Recebi o nome de Théo. O nome carinhoso com qual Vincent chamava seu irmão. Théo financiou a obra do irmão por muitos anos, sempre o incentivando a pintar, por mais sombrios que fossem os pensamentos de Vincent.
Quando soube que meu nome vinha do irmão de van Gogh sempre o idealizei. Mas idealizações não são permitidas aos coadjuvantes. Apesar de ter feito negócios com quadros de Monet, Degas, Gauguin, entre outros, só vendeu um único quadro do irmão. Por que, se hoje considerado um dos difusores do Impressionismo, não conseguiu ajudar o irmão?
O trabalho de Vincent e uma parte dessa figura idealizada de Théo nos chegou graças a esposa dele, Johanna. Johanna foi a verdadeira difusora da obra de Vincent, e quem organizou a primeira publicação que colecionava as cartas do pintor ao irmão. Essa Johanna tão gentil em descrever seu marido, e o casamento de apenas um ano e meio a seu filho, foi uma coadjuvante ainda menor de uma importância tão grande. Johanna que foi vítima de uma tentativa de assassinato, junto com o filho ainda bebê, por parte de Théo. Ela voltou a escrever seu diário, no intento de que seu filho conhecesse sobre o pai, e a obra do tio, de quem o garoto herdou o nome.
Não adiantaria a gentil idealização de Théo feita por Vincent em suas cartas, ou por Johanna em seu diário. Tal indulgência não é dada aos coadjuvantes. Não se permite pensar que Théo foi um dos mecenas mais importante para o Impressionismo... Ele foi um aproveitador que revendia com lucros absurdos e injustos os quadros desses pintores. Ele não foi um empregado modelo, mais jovem da Goupil & Cie... Foi considerado um maluco por seus empregadores. Não tinha visão a frente do que seria o Impressionismo... Foi um tolo que prejudicou a galeria. Não foi o único que incentivou o trabalho de Vincent... Foi um mecenas, envergonhado do trabalho do irmão, que só conseguiu vender uma única obra do pintor: Die Rooi Wingerd (A Vinha Encarnada). Não foi uma ligação fiel ao irmão que o levou... Ele morreu num estado terminal de demência causado por sífilis. Não acompanhou seu irmão ao túmulo... Seu corpo só foi exumado vinte e cinco anos depois de sua morte, quando foi enterrado junto ao do irmão em Auvers-sur-Oise.
Talvez essas coisas falem sobre mim, mais do que eu goste, aceite, ou mesmo compreenda. No entanto recebi meu nome por um livro; tive como primeiro presente de meu pai, um poema que não aprecio completamente. Não gosto completamente nem do poema, nem de meu nome... Nome de um coadjuvante que admiro, embora não quisesse o mesmo destino. Pois isso foi tudo que Théo van Gogh foi: um coadjuvante na história do Impressionismo. E aos coadjuvantes não está reservado nem grandes feitos, nem sequer uma versão romântica de sua história.
Nisso vejo meu destino, algemado a livros desde meu nascimento, herdando um legado de um nome que significa em grego, deus, que é a minimização de Theodorus, presente de Deus, que foi um dos mais importantes coadjuvantes na história da pintura. Qual meu papel? De um recém-nascido que teve como primeiro presente um livro, um poema? Que tem no nome um peso que não queria, e um legado que admira, mas o assombra e o aterroriza?
20 de Julho de 2009

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2010-07-01

Velho cedo demais


Ando percebendo um certo desafeto instalado contra coisas que estão fazendo sucesso na nova geração. Por algum tempo me pareceu que a fase da juventude estava ficando mais longa, mas essas brigas parecem apontar para que a juventude está ficando apenas mais precoce.

Está errado a gurizada gostar de Emotional Hardcore? Rock Colorido? Saga do Crepúsculo? Acho que na verdade estamos ficando velhos rápido demais. O que vejo é briga de gerações. Nossos pais achavam um absurdo nós gostarmos de algumas coisas e hoje em dia nós já achamos um absurdo que a próxima geração goste do que ela gosta. É supérfluo, é efêmero, é rasteiro. Isso são nossos conceitos, e infelizmente já estão datados. Pensamos do que os mais jovens gostam do mesmo modo que nossos pais não gostavam do que gostamos e nem tivemos nossa própria prole.

Muitas vezes o que consideramos atemporal é apenas justificado pela incapacidade de registro. Na época de Shakespeare, Mozart, ou mesmo dos Beatles, não havia tanta velocidade de comunicação. A latência deles está impregnada de falta de opção. Se você quiser saber como era o rock nos anos 70 vai ter um determinado trabalho, mas entre no MySpace.com e tente experimentar tudo que há do rock atual. Bem vindos a Era das Opções.
Se revoltar com os gostos de uma geração quatro, cinco anos mais nova é divertido e paradoxal. Os jovens de dezenove e quinze anos deveriam gostar de coisas semelhantes, mas não é o que acontece. E ainda limitados pela visão jovial eles resolvem atacar os gostos alheios, em lugar de fazer como pais poderiam fazer, estoicamente aceitar, ou proibir, os jovens mais velhos reclamam dos mais novos. Parece uma briga infantil entre irmãos.
Será que as gerações vão agora ficar separadas por um dois pares de verões? Mas você tem motivos e motivações para não concordar com os gostos de jovens de doze a quinze anos? Você acha que eles são alienados e estúpidos? Você não era assim na idade deles? Sinta-se velho, isso são sintomas de velhice e possível que você nem tenha passado dos vinte.

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2010-06-22

Em um segundo


Dizem que o jogo pode mudar em um simples segundo. Eu acredito nisso e em muitas outras alegorias do esporte. Estávamos ganhando. Era uma vitória simples, os adversários estavam quase sem chance de seguir em frente na competição. Não era a final, não era como se fosse dar o título para eles, mas a vontade, a disposição deles estava mostrando para mim algo que não via em meu próprio time.

O que via no meu time era uma soberba, uma arrogância. Eramos favoritos, eramos superiores. Sabe o que era mais bonito? Nada disso importava para nossos adversários. A derrota não era uma opção. Mesmo sendo inferiores, em técnica, em tática, em talento, eles estavam tentando compensar com o esforço.
Uma derrota poderia nos tirar da competição, na verdade o único modo deles seguirem em frente seria se os demais resultados nos desclassificassem e eles ganhassem. Não pude conter o sorriso quando eles empataram. Não era um resultado que os levasse a lugar algum, que nos impedisse, ou mesmo que fosse sustentável pelo jogo que estávamos jogando. Tínhamos possibilidade de ganhar, toda a perícia necessária...

E por tudo isso aquele lance alenteceu em minha mente, a bola era minha, mas não havia bola perdida para nossos adversários, não havia lance que eles não persistissem, insistissem, batalhassem. Era um lance simples, bastava fazer o que devia com a bola e eles perderiam o lance.
Foi nesse momento que o mundo congelou. Eu não escreveria história se simplesmente ganhasse, mas se eu desse a vitória para aquele pequeno adversário.
Talvez eles tenham me conquistado pela determinação, pela persistência, eu fui um jogador a mais no time deles, por isso posso dizer que eles ganharam.
Eu não entrei para o esporte para ser mais um que apenas persegue cegamente a vitória e esquece o que é superação, o que é belo no esporte. E algumas vezes, algumas vezes, isso quer dizer dar a vitória a outros, dar o direito de um adversário mais fraco, mais corajoso e persistente ter sua chance, fazer história. Se eu esquecer disso vou esquecer o que tanto amo no esporte.
Era tão simples e indefinido o que poderia fazer, mas tão transformador que fiz. Me deixei cair. O lance era meu, a bola era minha, mas essa simples falha poderia colocá-los a frente. Milhares de coisas poderiam acontecer depois. Talvez ainda fosse um teste... Eles eram tão motivados assim? Eles iam fazer a diferença? O esforço ia extrapolar as limitações e fazê-los passar a frente? Sei que eles marcaram.
Sei que ia ser crucificado, mas nessas horas o esporte vale mais do que o nacionalismo. Além do que, por que meu nacionalismo valeria mais do que o deles? Pode ser que as vitórias e títulos que conquistei sejam esquecidas depois disso.
Nem sempre ganhar é o mais importante, algumas vezes o espetáculo é mais importante, a história é mais importante. Eu não entrei para perder. Eu entrei para ganhar e seria um desrespeito aos meus adversários se fosse diferente, seria um desrespeito aos meus companheiros, a mim e mais importante, seria um desrespeito ao sentido do esporte. Mas meus adversários também entraram para vencer. E era nítido que em cada um deles essa vontade era superior a soma de todo o meu time.
Definitivamente, sem mim a história seria diferente. Talvez isso tenha sido o que mais me motivou. Não interessa em que lado da história se está quando se faz a história, afinal ela é espólio dos vencedores, serão eles que justificarão suas ações, serão eles que serão enobrecidos pela audácia e capacidade. Eu carregaria esse pequeno segredo, que se a história fosse escrita a partir dali eu seria a vírgula que mudaria o significado de tudo, e isso, isso vale mais do que qualquer vitória. Construir uma história de superação é mais interessante do que simplesmente alcançar a vitória.
Talvez fique lembrado pelo lado triste da história, mas se essa é minha oportunidade de fazer história, de fazer parte de um momento tão belo do esporte, eu agarro a oportunidade.
Meu nacionalismo está na inevitabilidade, está na certeza de que essa derrota não será nossa última chance, e talvez na descrença deles terem outra oportunidade. Pode ser que esteja enganado, que essa não seja a última oportunidade deles, mas só consigo acreditar nisso se eles ganharem hoje. Acredito que a decepção seria muito pior. Outros campeonatos virão para ambos, e por isso, para dar a eles a oportunidade que eles acreditem nesses próximos campeonatos, que simplesmente fui ao chão e deixei a bola passar. O que estaria a seguir era completamente com eles. Talvez com a simplória esperança que eles um dia façam a mesma coisa por outros. Pois é isso que acredito que é o esporte: uma torrente de superação, fluindo, mutante, transformando derrotados em vencedores, vencedores em altruístas derrotados, superando desafios.

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2010-06-12

Prefácio: Batalhas Perdidas


Já tinha escrito um pouco de como seria minha visão de um herói com super-poderes. Volto a Dred, um desses super-seres numa narração em primeira pessoa. Dred é o vigilante que toma a África e todos os problemas dela como tarefa, missão. Por isso resolvi publicar essa em época de copa do mundo na África. Ubuntu!

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Dred's Tales: Batalhas perdidas


A peça de metal subiu, cruzou a atmosfera e despedaçou o aparelho. Odeio ser espionado. As pessoas precisam aprender isso. Não sei exatamente como consigo saber que estou sendo observado, mas definitivamente não gosto. Detesto tanto que passo horas procurando o intrometido. Mesmo conseguindo enxergar satélites no céu, o menor movimento dos olhos me faz visualizar quilômetros de distância. Mesmo os menores ângulos implicam grandes distâncias.

Eu fico pensando o que ficam pensando os observadores desses satélites quando eu olho de volta e momentos depois o aparelho está em pedaços.
Nunca gostei de esportes, mas acho que arremesso ao satélite está me conquistando. Sempre fui alto, magricela e desajeitado. Quando era criança não conseguia submeter uma bola a minha vontade nem para salvar minha vida.
Mas a puberdade me deu uma coordenação motora sobrenatural. Foram diversas alterações sobrenaturais. Minha força parece impossível. Já recebi tiros de canhão a queima roupa e escapei para revidar. Consigo me mover mais rápido do que seus olhos podem acompanhar. Já saltei de aviões sem para-quedas e escapei.
Eu consigo arremessar uma pedra para fora da atmosfera. Isso requer um tanto de habilidade. O caso é que a atmosfera é uma grande adversária. A maioria das pedras que arremessei simplesmente se despedaçava contra o atrito. Hoje arremesso placas de metal retorcido em volta dessa mensagem.
Meu nome é Dred se você está lendo isso, você é um astronauta na estúpida missão de entender porque um satélite parou de funcionar durante a vigilância ao super-vigilante na Africa.


Parei de escrever mensagem e a rasguei. Provavelmente ela se incineraria, nunca abririam o projétil ou ela iria parar muito depois de estraçalhar o alvo. Amassei a peça de metal e deixei ela do tamanho de uma bola de golfe.
Olhei novamente para o satélite e arremessei o projétil. Ela brilhou escarlate enquanto esquentava contra o atrito da gravidade. Me concentrei e o mundo desacelerou no momento em que meu dardo se chocava contra o aparelho espião. Em câmera lenta vi a esfera de metal incandescente criar um buraco através do satélite e as partes se separarem de forma explosiva.
O projétil se moveu pra muito longe. Não ia ter adiantado ter colocado a mensagem dentro. Os escombros flutuantes nunca vão cair no planeta, e se forem a gravidade vai pulverizar os destroços antes deles atingirem o solo.
Aposto que Scot e Nadia não precisam se preocupar com satélites espiões. Mas os dois voam... Eu poderia me mover mais rápido do que eles poderiam me achar, mas o mundo seria absurdamente chato.
A minha volta está uma erma paisagem africana. Não tenho a menor idéia de onde estou. Há cinco dias que não escuto ninguém falar inglês. Um agricultor me observa ao longe, temeroso demais para se aproximar. Talvez eu lembre a ele histórias antigas sobre demônios fazendo coisas sobre-humanas.
Melhor seguir em frente. Se continuar andando cedo ou tarde os problemas vão me encontrar. A noite chega com uma lua brilhante. Somente as estrelas já seriam suficiente para tornar claro o cenário que me envolve. Ele poderia até parecer silencioso. Os predadores querem assim, mas eu consigo ouvir o bater dos corações dos pássaros que dormem ao longe.
Nessas horas em que não estou despedaçando armas, amarrando assassinos, detonando minas, me vem as lembranças das coisas humanas que não sinto mais. Não sinto frio. Não sinto calor nem sob o escaldante Sol da savana. Nem quando cruzei o Saara senti calor ou frio. Não me lembro qual foi a ultima vez que suei. Não lembro quando foi a derradeira vez que comi. Lembro que foi com uma família. Eles só tinham uma pasta estranha para comer. Comemos com a mão. Eu comi apenas para partilhar, mas a alegria estava em partilhar. Nem lembro quando senti fome. Mas hoje como todos os dias, vou me forçar a dormir, para manter algo de humano.
Já que não me canso não é muito simples saber quanto andei. Há um acampamento a frente. Talvez uma centena de famílias. Água deve estar longe. Provavelmente ninguém fala uma linha de inglês. Eu definitivamente tenho de passar algum tempo em algum lugar aprendendo o mínimo. Como posso ajudar esse povo se nem sei o que eles falam?
A resposta chega junto com o caminhão que para nas imediações. Apuro meu foco e noto que há homens com tacapes e facões cercando o campo. Um homem desce do caminhão. Típico estrangeiro. Algo de siciliano, eu diria. Ele abre o caminhão. Alguns dos homens armados se aproximam. Algumas crianças chegam carregando sacos. Milho, feijão. São sacos de comida. O homem descarrega uma caixa de madeira e a abre: fuzis.
É um comércio escabroso. Aquele acampamento provavelmente tem sido alimentado por ajuda humanitária. Os homens estão trocando a comida por armas. Esse continente está além de qualquer ajuda...
Mas não há motivos para me parar de tentar. Surjo do lado deles como uma assombração. O estrondo da barreira do som sendo rompida chega logo após. Poderiam imaginar que surgi junto com um trovão.
O motorista deve falar inglês. Não queria que a primeira palavra em inglês que trocasse fosse aquilo, mas não sei quem é pior: os que desistem dos alimentos por armas ou os que provem aquelas armas.
– Você – eu aponto para o motorista – Não sei qual é o trato, mas está cancelado. Eu vou descarregar o caminhão...
Depois de minha aparição alguns se jogaram no chão, outros fugiram. Tenho certeza que o motorista não acompanhou uma palavra do que eu disse, ele sacou um revolver e atirou. Quando minha percepção atinge a velocidade necessária para acompanhar a bala, ela está diante de meus olhos. Tento apanhá-la antes dela se deformar contra meu rosto. Sinto o impacto, e só recupero a bala semi-intacta.
Desacelero para ver o mundo a volta. Eu com uma bala entre os dedos. O motorista grita. Crianças correm desesperadas. As pessoas que vieram observar a negociação fogem e se escondem. O provável siciliano nem sente eu arrancar a arma das mãos dele. Antes que ele sequer note já transformei o instrumento numa massa deformada do tamanho de uma bola de tênis.
O agarro e espero os segundos passarem para a adrenalina ceder. O coração dele bate de modo estranho pelo que escuto. Espero que ele não resolva morrer. Arrasto o sujeito para longe enquanto puxo o caminhão junto. Deixo os sacos de alimento para trás. Alguns já fogem do acampamento.
Aquela demonstração de força deve ser apavorante para eles. Indago ao sujeito qual era o acordo e digo que ele vai ficar com o caminhão, mas vou destruir todas as armas. O sujeito leva algum tempo até lembrar que fala inglês. Pelo menos ele não morreu. Ele não é italiano, na verdade é africano de pais imigrantes espanhóis.
O motorista me conta que aquelas pessoas estão sendo ameaçadas por um outro grupo, que inclusive destruiu as aldeias deles, centenas morreram. Por isso eles se refugiaram naquele acampamento. Quando as ameaças chegaram aos acampamentos os europeus partiram.
– Eles não tinham opção – o motorista fala com um inglês horrível.
Queria nunca ter visto situação semelhante. Mas a memória de minha escolha ainda arde na minha cabeça. Uma vila estava sendo ameaçada. O contrabandista me disse que por isso eles estavam desistindo de tanto da colheita para trocar por armas. Deixei eles fazerem a troca. Depois de espantarem os invasores, aquele mesmo grupo se voltou contra outros e fez um massacre. Pelo menos aprendi minha lição: não escolha lados.
– O caminhão pode ir – eu disse – As armas já eram...
Já tinha visto muitas batalhas naquele continente. As armas do falso italiano eram velhas e horríveis. Mas não importava quem tivesse as melhores armas: ia ser um banho de sangue e eu não ia cometer o mesmo erro duas vezes. Mandei o motorista avisar que ia destruir as armas e que ia fazer o mesmo com as dos agressores.
As armas e munição arderam e explodiram. Alguns me olhavam enquanto pequenas explosões povoavam a fogueira que ascendi. São olhos cheios de medo, de dúvida. Eu seria a resposta a suas preces? Seria um demônio? Ou seria apenas mais um para os explorar? O dia segue. Ninguém se aproxima. Mantenho-me erguido olhando para o longe. Não vejo nada, deixo que minha audição pinte o cenário a minha volta.
Pessoas conversando. Um tom estranho. Animais, vento, insetos. Ouço a voz do motorista. Uma voz feminina, dois corações jovens batendo acelerado, um soluço infantil. A porta do caminhão se abre. Olho para o veículo. A porta já se fecha, no veículo que parte. Duas meninas na boleia junto com o motorista, não mais que doze anos cada. Não consigo ouvir meu próprio suspiro e já estou diante do caminhão. O motorista breca assutado com minha segunda aparição.
Arranco a porta dele e o retiro do veículo. Ele está assustado novamente, mas parece entender que não vou matá-lo. Isso ajuda tanto que só preciso mandar três vezes ele dizer para as meninas voltarem para casa. Elas se mantém paradas.
– Qual é o problema? – indago ao motorista.
– Elas perderam os pais – o motorista fala no seu inglês insuportável – O tio delas as estuprou e a esposa dele as vendeu para mim.
– Pra onde ia levá-las?
– Pra um prostíbulo...
Mais uma batalha perdida. O que eu poderia fazer para ajudar aquelas meninas? Deveria haver mais crianças naquela situação no acampamento. Meu coração dá uma pulsada no ritmo além do habitual. Sinal de raiva. Não posso sentir raiva, não posso perder o controle. Mais uma batalha perdida. Mas nunca posso perder o controle... Haveria consequências.
Sinto a bala se deformar nas minhas costas. O impacto é violento, me tira o equilíbrio. Outros tiros. Eu deveria ter percebido, eu poderia ter percebido, mas concentrado em controlar minha raiva os invasores chegaram atirando. O motorista também foi alvejado. Morto instantaneamente.
Ergo-me e avanço contra os três veículos que chegam. Uma dúzia de homens, na verdade homens e crianças, atirando para matar, sem escolher vítimas. Os jipes param no meio do acampamento. Como pude perder tanto tempo? Derrubo e desarmo todos do primeiro antes deles saberem que estou ali. Viro o segundo. O terceiro tem uma metralhadora montada no chassi e o artilheiro não hesita, dispara contra mim. O calibre elevando me leva ao chão. Ele continua atirando por mais do que seria necessário. Os homens do jipe que virei se erguem celebrando.
A expressão de horror que se emoldura nos rostos deles quando me levanto é medonha. Minha roupa já era paupérrima, estava em farrapos. Ouço uma explosão do lado de fora do acampamento. O caminhão com as duas meninas explodiu. Ouço os gritos delas. As balas devem ter acertado o sistema de combustível.
Nova desatenção, novo disparo. Mas tenho tempo suficiente para acelerar minha percepção. A bala ainda não saiu da metralhadora do jipe. Nem sairia, o disparo vem de um dos homens no chão. Aproximo-me apanhando a bala que se dirigia a mim. Não posso deixar balas voarem soltas. Enterro os dedos no lado do aparato, sinto uma bala roçar meus dedos, a bala escapa rodopiando pelo buraco que abri.
Coloco o atirador no chão e apanho a bala que ainda subia, arremesso-a contra a metralhadora do jipe e me dirijo a ele. Chego antes dela e apanho os dois outros atiradores pelo colarinho, eles nem sabem que largaram as armas em vista do meu avanço. A bala que arremessei atinge a metralhadora, os tiros que o atirador disparou fazem o armamento se despedaçar depois da lesão sofrida pelo meu arremesso.
Empurro uma massa de ar e derrubo os invasores que ainda estavam de pé. Os jipes estão vazios. Naquela velocidade os sons não existem. Não ouço as crianças gritando, mas não há nada que possa fazer. Meu coração não emite nenhum pulso de raiva. É mais uma batalha perdida.
Salto e diminuo minha velocidade de percepção. Os segundos em que subo até a altura das nuvens são realmente segundos. Quando chego lá re-acelero, quero que esses instantes de solidão durem o máximo possível.
Sinto a gravidade começar a me afetar e retorno a velocidade de percepção humana, projeto minha descida para o jipe. Movo-me para ganhar tanta velocidade quanto possível. Rasgo o veículo em dois com meu impacto. O mundo alentece novamente. Apanho as duas metades e as arremesso para fora do acampamento.
O mundo volta a sua velocidade normal. Os acampados vibram, os invasores fogem desesperados. Afasto-me. Aquela não foi uma vitória, duas crianças inocentes morreram sem motivo. Meu tradutor estava morto. Perco a noção do tempo. Noto alguém se aproximando. É um garotinho correndo atrás de uma bola. Seus companheiros que corriam atrás param ao notar que ela toma minha direção.
Coloco o pé no caminho e ergo a bola com um leve toque. Nunca ia conseguir fazer aquilo na idade deles. Ela sobe a equilibro na cabeça, solto-a sobre meu peito e deixo ela rolar pelo corpo para minha outra perna fazendo ela voltar ao garoto. Ele amortece a bola no peito e pisa em cima dela. Ele ri. Comprei mais um tempo de vida para ele. Mais algum tempo para ele jogar...
Futebol. É o esporte mais popular do mundo. Apreciado por ricos e aristocratas no velho mundo mundo e por camponeses sofridos na África. Será que haveria algum modo de fazer as pessoas prestarem atenção em todas as batalhas que perdi nesse continente? Acho que não. Acho que nem ajuda humanitária. Acho que nem uma Olimpíada nesse continente mudaria o modo como encaram a África. Pelo menos esse pedaço selvagem e desumano do continente onde os humanos surgiram. Mas não importa, não há motivos para não lutar uma batalha perdida. Vou embora ouvindo a animação dos pequenos jogadores. Mas vou continuar lutando minhas batalhas perdidas, vou continuar lutando pela África. Sabendo que nem futebol, nem olimpíadas, nem ajuda humanitária, nem vigilantes com super-poderes vão mudar a África.

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2010-05-31

Prefácio: A arte do jogo


Já não bastasse a ambiguidade que trato no texto ainda me deparei com outra: o texto é sobre literatura ou sobre tecnologia? Eu fiquei na dúvida e por isso ele será publicado no www.unreversed.com (unreversed.blogspot.com.br), mas vou deixar no www.999thnight.com (999thnight.blogspot.com) o link para o post em português.

Sobre a intrigante pergunta: Videogames são uma forma de arte? Leiam:

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2010-05-30

Aviso: Bem vinda Laryssa


Estou aqui muito feliz para anunciar que minha comparsa nesse blog acaba de nos agraciar com sua prosa. Quero mui solenemente dar as boas vindas a escrita afiada e ágil dessa metereologista por acaso, escritora por paixão e estilista por natureza. É imenso prazer ter seu estilo e sua estilística se fazendo presente nesse blog. Grato pela ajuda. Aproveitem tudo que nossa primeira e única redatora tem a oferecer. Acho que agora só falta publicar as traduções para a versão 2.0 do blog entrar no ar.

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